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Tragédia na Love Parade levanta questões de segurança
(2010-07-26)

A tragédia que aconteceu este fim-de-semana na Alemanha, na Love Parade, veio trazer à ribalta a problemática da segurança nos eventos. 19 pessoas morreram esmagadas e 342 ficaram feridas numa situação de verdadeiro pânico no único acesso ao evento: um túnel de 200 metros de comprimento e 30 metros de largura. O que é que correu mal? De quem é a culpa? Fazem sentido eventos como este? O que pode ser feito para evitar incidentes no futuro? Fomos falar com o Coronel José Pimentel Furtado, especialista em segurança de eventos.



Prever tudo

“A situação é muito complexa e não dispomos de todos os dados para a analisar”, refere o especialista, no entanto, uma coisa é certa “um evento de 1,4 milhões de pessoas numa cidade de 500 mil habitantes é motivo de preocupação logo à partida”. Por outro lado, além do número de pessoas, há que ter em atenção o tipo de pessoas que assistem ao evento. “Não é propriamente uma procissão das velas em Fátima, mas um acontecimento com muitos jovens, muitos já bebidos e drogados, com atitudes de desafio à autoridade”. Na opinião de Pimentel Furtado a organização decidiu bem em continuar com o evento, “é importante não deixar alastrar o pânico e continuar com o evento, sob pena de acontecer uma tragédia maior”. Com o pânico instalado é muito difícil fazer alguma coisa.

As situações da segurança num evento são complexas e devem ser tidas em conta antes, durante e após o evento. Antes é necessário calcular de quantas pessoas estamos à espera e dimensionar o recinto ao público. “A lei portuguesa estabelece que os recintos podem receber no máximo 3 pessoas por m2”, faz notar o especialista. Depois há que ter em conta o número de entradas e saídas e – muito importante – a largura das mesmas. “As pessoas não devem estar mais de uma hora para entrar e se estamos a falar de mais de um milhão de pessoas, temos de adaptar a logística a isso”. Há também que fixar o número de saídas de emergência. “O recinto pode até só ter uma entrada, mas em caso de incidente temos de ter saídas de emergência preparadas”, explica Pimentel Furtado. Segundo diversos estudos, 80% das pessoas saem pelo mesmo sítio por onde entraram. Ora, tal como neste caso em Duisburgo, ter só uma entrada pode complicar em caso de emergência, “posso ter muitas saídas disponíveis, mas as pessoas saem pelo acesso por onde entraram”. Em todas as entradas onde se acumule público é muito importante haver um corredor de emergência para ambulâncias, elementos da organização, etc. Nas imagens visionadas não foi aparente a existência desse corredor. Na prática pode existir socorro suficiente e não haver maneira de o colocar atempadamente no foco do incidente.



Muito importante também é existir um sistema de comunicação com o público, que pode ser na forma de altifalante, megafone, sinalização electrónica, etc. “Tem que se comunicar com o público e fornecer as actualizações necessárias, quer dentro do recinto, quer nas imediações”, adianta o especialista que também evidencia a necessidade de existir um sistema de detecção de tudo o que se passa nos recintos. Tudo deve ser planeado e previsto antes do evento acontecer.

Durante e após o incidente

Muito importante em eventos como este – e noutros também – é existir uma central de segurança, “tem que haver capacidade para perceber o que está a acontecer, comunicar com todos os intervenientes que já foram identificados no plano de segurança do evento, capacidade de intervenção e capacidade de comando”, enumera Pimentel Furtado. O director de segurança e o director do evento têm que intervir e decidir como agir, “tem que haver comando”, explicita.





Noutros acidentes do passado, em que morreram mais pessoas, as multidões eram bem mais pequenas. E uma tragédia destas podia acontecer perfeitamente cá. “Eu costumo dizer que o plano de segurança dos eventos é a Nossa Senhora de Fátima, mas o facto é que se brinca muito com o fogo”, conclui Pimentel Furtado.

Cláudia Coutinho de Sousa


(Foto retirada do site www.loveparade.ro)


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